A face obscura da política

Data de publicação: 05/09/2017

Fábio Servio (Diário do Povo)

 

O temor dos apoiadores de Lula era a possibilidade do ex-presidente ser hostilizado durante sua passagem por Teresina por movimentos como o Vem Pra Rua. Para evitar o possível conflito, o vereador Edilberto Borges, o Dudu, solicitou a segurança até da Polícia Federal. Esqueceu o edil que nós, piauienses, somos o povo mais ordeiro e pacífico do Brasil. Não seria nesta terra que Luís Inácio Lula da Silva e seus militantes sofreriam qualquer violência. E não sofreram. A vítima da violência política foi outro nordestino, um piauiense. Herbert dos Santos Matos Júnior. Pelo relato do seu filho, espancado por cinco homens que faziam a segurança de Lula. Nada que engenheiro Herbert tenha dito ou feito justifica as agressões sofridas por ele. Não estamos na Venezuela do ditador Nicolás Maduro, defendido por integrantes do Partido dos Trabalhadores. Estamos no Brasil e ainda  vivemos numa democracia com garantia do Estado do Direito, ampla defesa e Poder de Polícia. O incômodo criado pelo engenheiro durante o jantar do PT poderia e deveria ter sido resolvido por autoridades policiais.

 

Em 1954, o jornalista e político Carlos Lacerda sofreu um atentado na Rua Toneleiro, endereço de sua residência no Rio de Janeiro. À revelia do presidente Getúlio Vargas, seu chefe de segurança, Gregório Fortunato foi o mandante do crime que ceifou a vida do major Vaz. Lacerda saiu ferido. Um ponto em comum entre Lacerda e Herbert: os dois, a seu modo e em proporções diferentes, faziam oposição a um político de envergadura nacional. O incidente em Teresina é um atentado contra a democracia. É o exemplo de quão perigoso é desafiar o Poder. Como Vargas, Lula não sabia o que estava por acontecer.

 

Somos tão pacíficos que não houveram protestos e nem apoio ao engenheiro conterrâneo, vítima da truculência que cerca os políticos. Essa é a outra face da política, pertencente àqueles que estão dispostos a ultrapassar os limites legais em defesa de seus líderes. O silêncio da imprensa sobre o assunto foi quebrado pelo Portal AZ, do jornalista Arimatéia Azevedo, e pelo jornal Diário do Povo.

 

Surgem os relatos de que Herbert Matos teria sua personalidade alterada sobre o efeito do álcool. Mesmo que tenha excedido os limites, nada justifica a agressão física sofrida por ele. Nada. A violência sofrida por ele não difere da empregada durante o regime militar contra movimentos de esquerda, a mesma que o próprio PT critica e lutou contra durante toda a sua existência partidária. A ferocidade com que Herbert, seja ele ébrio ou não, foi expulso do clube da APCEF - do qual ele é sócio como funcionário da Caixa - é a mesma que os Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil combateu durante seus mais de 80 anos de atuação. Tempestivamente, entidades de classe como o Sindicato dos Engenheiros e o Conselho Regional de Engenharia emitiram notas de repúdio sobre o fato. Até o fechamento desta edição, nenhuma palavra da OAB-PI.

 

Existe uma demonstração clara do alcance de outra violência: a da liberdade de imprensa. O fato não ganhou a devida proporção dos veículos de comunicação, silenciados pela mão de um Governo que consegue calar a maioria das vozes daqueles que ousam apontar seus erros.

 

Mas o pior silêncio de todos foi o do ex-presidente que deixou Teresina sem dar nenhuma declaração sobre o fato. Nenhum pedido de desculpa. Nenhuma solidariedade. Pelo relato do filho da vítima, prestado ontem ao 12o. Distrito, Herbert apanhou até ficar em silêncio, desacordado no meio da rua. Até quando Lula e o governador Wellington Dias vão  ficar calados sobre o ocorrido em Teresina? Comprovado a agressão por parte de seus seguranças, que providências vai tomar sobre o assunto? A dor de Herbert Matos foi abafada pelos aplausos da militância petista.

 

Fonte: Diário do Povo